A fé e as obras
Carlos Alberto Chiquim
A fé é acreditar em algo com todas as forças e com todo coração. É entregar-se de corpo e alma a uma causa, muitas vezes, imperceptível ao conhecimento humano. É crer em Deus ou numa manifestação do Transcendente, capaz de preencher o vazio existencial e dar sentido à própria existência. A fé é um sentimento interior que impulsiona a humanidade na busca de um mundo mais fraterno e mais justo, que na linguagem cristã é chamado de “Reino de Deus”.
Lendo os Evangelhos, percebemos que Jesus começou sua missão exatamente pela valorização da condição humana. “Jesus demonstrava compaixão pelas situações de pobreza, de doença, de pecado, que marcavam as pessoas que o procuravam. Sua misericórdia diante da condição humana revelava a condescendência divina, que o tinha trazido ao encontro da humanidade. Foi esta compaixão que o levou a saciar a fome da multidão, urgindo a partilha dos poucos pães e peixes que os discípulos traziam. Ao mesmo tempo, Jesus não se limitava a atender necessidades humanas. Aos que o procuravam porque tinha multiplicado o pão, censurava a estreiteza de objetivos, e convidava a procurarem um alimento diferente. Do pão cotidiano Jesus passava para o “pão da vida eterna”, assim como da água do poço de Jacó tinha convidado a Samaritana a buscar a água que jorra para a vida eterna” [1], isto é, aquela que dá o verdadeiro sentido para a vida.
A pessoa humana deve glorificar a Deus na terra através de suas obras. Dar glória a Deus significa promover a dignidade do homem e da mulher, suas criaturas. Podendo fazer obras de promoção humana, de caridade e de justiça, e não as fazendo, peca contra Deus e não se justifica pela Fé, visto que sua Fé é morta ao não produzir os frutos esperados, pois a fé promove a humanização de toda pessoa. Irineu de Lion, um dos expoentes da era Patrística, assim se expressou: dar glória a Deus é fazer com que o homem viva. E para que ele viva é preciso que tenha as condições mínimas de saúde, educação, trabalho e dignidade.
O apóstolo Paulo "Manda (...) que se façam ricos em boas obras" (1Tim 6,18). E ainda: "Deus retribuirá a cada um segundo suas obras" (Rom. 2, 6). Em "boas obras", porque, completa S. Tiago, "o homem é justificado pelas obras e pela fé" (Tgo 2, 24) ou pelas obras que nascem da fé, porque a "fé sem obras é morta" (17) e só uma fé viva pode dar a vida. A salvação vem pela fé e adesão a Jesus Cristo. Essa fé, porém, não é coisa teórica ou mero sentimento interior, é um compromisso que se manifesta concretamente em atos e fatos visíveis (Mt 7,21), promotores da vida. A fé sem as obras é morta, não existe. "Nem todo aquele que me diz 'Senhor, Senhor' entrará no Reino dos Céus, mas aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus" (Mt. 7, 21). Ora, o que é essa "pratica" da "vontade de Deus" se não as "boas obras"? S. Tiago nos diz: de que serviria, meus irmãos, dizer alguém que tem fé, se não tem obras? Porventura poderá a fé salvá-lo? Assim também a fé, se não tiver obras, em si própria, está morta (Tg 2,14-16).
O Evangelista Mateus é muito incisivo na questão da prática das boas obras e da misericórdia. "Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte. Nem se acende uma lâmpada e se coloca debaixo do alqueire (pequeno móvel), mas no candelabro e assim ela brilha para todos os que estão na casa. Brilhe do mesmo modo a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que está nos céus" (Mt 5, 14-16). No capítulo 25, Mateus diz: “Vinde benditos de meu Pai, porque eu estava com fome e me destes de comer, estava nu e me vestistes, estava com sede e me destes de beber, estava na prisão e me visitastes, estava doente e fostes ao meu encontro”. O apelo de pessoas excluídas nos dias de hoje continua ecoando cada vez mais forte. São pessoas doentes, pobres, sem trabalho, sem estudo, sem qualificação profissional. Todas esperam uma oportunidade que alguém lhes estenda a mão. Parafraseando Mateus poderíamos dizer: vinde benditos de meu Pai, porque estava excluído e me integrastes na sociedade, estava analfabeto e me destes a oportunidade de aprender, estava desempregado e me destes uma qualificação profissional. A mudança da sociedade depende de iniciativas pessoais e comunitárias que envolvam os três setores da sociedade: a comunidade organizada, o mundo empresarial e o governo.
Olhando o Brasil, onde praticamente 95% da população é cristã, integrantes das várias denominações religiosas, constatamos, ainda, que a desigualdade social salta aos olhos. A fé
ainda não está sendo vivenciada em profundidade e, conseqüentemente, não é operante. Os frutos da fé são: a paz interior, o encontro do sentido da vida e a prática de obras concretas, isto é, a caridade. A caridade não é apenas doar algo como desencargo de consciência ou indignação ética. A caridade deve ser ativa e promotora da dignidade humana. Nesta perspectiva todos somos convidados a promover ações geradoras de vida e potencializadoras de ações que visem ao resgate dos que não têm voz e nem espaço na sociedade, marcada pela globalização e pelas conseqüências do neo-liberalismo excludente.
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