O livro de Jó
Pe. Carlos Alberto Chiquim
1 - Introdução: O livro de Jó faz parte da literatura sapiencial do Povo de Israel, porém, a exaltação à sabedoria está presente em todo antigo oriente. Quando falamos em livros sapienciais , nos referimos a cinco livros do Antigo testamento: Jó, Provérbios, Eclesiastes, Eclesiástico e Sabedoria. O livro dos Salmos e o Cântico dos Cânticos são, às vezes, colocados indevidamente entre os livros sapienciais.
Esta vasta literatura era produzida pelos chamados sábios que, antes do exílio da Babilônia, eram ligados à corte de Jerusalém, e depois do exílio ao templo e sinagogas. Os sábios formavam uma classe educada que vivia de serviços prestados aos reis da época. Eram profissionais, sabiam ler e escrever, inclusive em vários idiomas. A sua função mais importante era aconselhar os reis. Os sábios tinham que defender o rei, não ofendê-lo e nem provocar sua ira. Na época, a literatura sapiencial, ajudava na orientação dos jovens sobre atitudes, deveres e conhecimentos úteis. O pai da sabedoria foi o rei Salomão. A sabedoria era a prudente orientação para a vida.
2 - Contexto Histórico do Livro de Jó: O Livro de Jó reflete a realidade da comunidade judaica após o exílio da babilônia (mais ou menos 400 a.C.) sob o domínio do império persa. Foi um tempo de crise econômica e grande empobrecimento do povo. Com a queda do Império Babilônico, o rei Ciro permitiu que o povo de Judá voltasse para sua terra. Era uma época de esperança e entusiasmo, porém, tudo acabou muito diferente do que havia sido profetizado. O povo desanimou, empobreceu, e caiu numa
grande crise religiosa.
Diante da situação de opressão e miséria, o povo se questionou: qual a diferença entre ser justo e ser ímpio, uma vez que os ímpios prosperam e vivem felizes, enquanto os justos são oprimidos, sofrem e ficam cada vez mais pobres? Da crise sociológica originou-se a crise teológica. Sempre se afirmou que Deus protege e abençoa o justo e condena o opressor. Os fieis começaram a se perguntar: onde está o Deus da justiça? Vale a pena ser justo? Essa crise foi explicada com uma teologia que visava garantir os interesses daqueles que viviam na segurança e no bem estar, pelo pessoal ligado ao templo: “os famosos amigos de Jó”. Essa doutrina consistia em afirmar: a) Deus Criador e Senhor da história. Essa imagem visava manter o povo submisso ao sistema da época. Questionar ou desobedecer era opor-se aos desígnios de Deus, ser injusto e ser pecador. b) Doutrina da Retribuição. O justo é abençoado por Deus, com vida longa, saúde, muitos filhos, honra e prosperidade econômica e o ímpio castigado por Deus com morte prematura, esterilidade, doença, desprezo e miséria.
Assim, os poucos ricos e opressores tinham a proteção da religião que os declarava justos e tementes a Deus, enquanto que a grande maioria dos pobres, além dos sofrimentos, sentiam o peso da religião que os considerava pecadores.
O livro de Jó é uma obra prima da literatura sapiencial que tenta desmascarar a religião da falsidade. A Doutrina da Retribuição não funciona. Desde antigamente, era crença generalizada entre o povo, que as boas ações que alguém faz atraem a benção de Deus, e as más ações atraem o castigo. Um determinado ato, bom ou mau, acarretava uma conseqüência que estava baseada em Deus. Uns pensam que Deus é injusto porque põe nos ombros de uns, as culpas de outros, outros acham que Deus não faz nada, que Deus os abandonou. Onde está o Deus da aliança? Por isso o livro relata que, os justos, tornavam-se cada vez mais pobres, atingindo até mesmo a condição de escravos, e os ímpios, tornavam-se cada vez mais poderosos.
No cativeiro da Babilônia, muitos atribuíram aos pecados dos antepassados a causa dos castigos que Deus lhes imputou. “Os pais comeram uvas verdes e a boca dos filhos ficou amarrada” (Ez 18,1). Na época de Jó não havia a compreensão ou a fé na ressurreição futura. Acreditava-se numa outra vida onde maus e bons, ricos e pobres, teriam a mesma sorte. Daí a importância da Retribuição conforme as obras durante a vida física. Aos bons estavam reservadas vida longa, saúde... e o contrário para os maus.
3 - O Livro de Jó O personagem principal desta historia, Jó, é um herói dos tempos antigos, que se supõe ter vivido na época patriarcal, nos confins da Arábia e do Pais de Edon, numa região cujo sábios eram celebres e de onde vem também seus três amigos. A tradição considerava-o como grande justo que permanecera fiel a Deus numa provação excepcional.
Com tal relato que satanás quis por Jó a prova. Jó era um homem integro e correto que temia a Deus. Tinha sete filhos e três filhas. Possuía muitos animais e era um homem muito rico. Numa conversa entre Deus e satanás, Deus se refere a Jó: “Reparaste no meu servo Jó? Na terra não ha outro homem igual a ele”. Satanás respondeu: “é por nada que Jó teme a Deus? Porventura não levantaste um muro de proteção ao redor dele, de sua asa e de todos os bens? Abençoaste a obra das suas mãos e seus rebanhos cobrem toda a região. Mas lance uma maldição sobre Jó, então ele se voltara contra ti.” Deus então permitiu que satanás provasse Jó. Um dia Jó viu sua casa ruir. Toda sua criação morreu. Todos os seus servos foram assassinados, seus filhos e filhas foram mortos num furacão. Então Jó disse: “nu sai do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. O Senhor Deus, o Senhor tirou. Bendito seja o nome do Senhor” e Jó não cometeu pecado contra Deus. (Cf Jó 1).
Deus ficou contente com Jó, mas satanás, com inveja, provocou Deus novamente: “Tire a sua saúde, estenda a mão sobre ele, fere-o na carne e nos ossos, eu te garanto que lançarás maldições contra ti” e Deus permitiu. Satanás feriu Jó com chagas malignas desde a cabeça ate os pés. Sua mulher disse-lhe: “Amaldiçoa a Deus e morre duma vez”. E Jó respondeu: “ Falas como uma idiota: se recebemos de Deus os bens, não deveríamos receber também os males?” e Jó não cometeu pecado contra Deus.
Chegam então os três amigos de Jó: Elifaz de Temã, Baldad de Suás e Sofar de Naamat, ao inteirar-se da desgraça que havia sofrido, partiram de sua terra e reuniram-se para ir compartilhar sua dor e consola-lo. Seguem ai os vários discursos de Jó e de seus amigos.
4 - Discurso de Jó e a Esperança da Vitoria Os discursos de Jó nos ajudam na compreensão do ataque a teologia que justifica o sofrimento do inocente, da imagem de Deus que esta teologia e seus seguidores promovem. Apresentamos uma breve síntese dos dez discursos de Jó, que permite perceber o crescimento da argumentação de Jó e sua esperanca-certeza de sua vitoria.
Primeiro discurso: Jó 3 Em profunda queixa sobre seus sofrimentos, Jó amaldiçoa seu nascimento e se pergunta pela razão de nascer, viver para sofrer e depois morrer. No v.20 esta a base do problema: o sentido da vida do pobre, sofredor, inocente.
Segundo discurso: 6-7 Para poder compreender Jó e preciso experimentar seus sofrimentos. Jó considera-se destruído pelo poder absoluto de um Deus terrível, fiscal e vingador (cf. 6,9; 7, 18-20).
Terceiro discurso: 9-10 Traz uma detalhada descrição de um Deus carrasco, vingativo, opressor, inimigo do homem. É o Deus da teologia tradicional. Diante dele, o homem não tem nenhuma chance. Então Jó invoca o Deus da justiça. Deus como árbitro (cf. 9,32-35).
Quarto discurso: 12-14: Jó rejeita: - o falso consolo dos amigos que, com sua sabedoria tradicional, não compreendem a verdade do seu caso. - a sabedoria dos amigos, chamando-a de caduca (12,2), cinzenta e argilosa (13,12), e seus defensores de “embusteiros e charlatães” (13,4). - a imagem convencional de um Deus que convém aos interesses dos dominadores. É o deus da ira e opressor. Jó buscar o Deus verdadeiro, de misericórdia. E exige apresentar-se diante dele para expor-lhe sua defesa (cf. 13,13-19). Deus será seu juiz e promotor (cf. 13, 20-23). Seu caso é urgente, uma vez que não ha esperança depois da morte. (cf. 14).
Quinto discurso: 16-17: Novamente Jó se irrita com os discursos vazios e sem limites de seus consoladores inoportunos (12, 2-3) e apela para Deus como juiz, testemunha (16,19) e penhor (17,3). Aparece com maior clareza a visão de dois deuses: um, que esmaga (16,7-14.21) e outro que defende (16,19-21; 17,3-4).
Sexto discurso: 19: Contra seus amigos que o afligem, magoam, insultam (19,2-5), do Deus que o tortura e persegue (19,6-13.21-22) e da indiferença de seus íntimos (vv. 14-29), Jó busca refugio no seu defensor, no seu “goel” (vv25-27). O sofrimento do inocente será vingado como o sangue de Abel clamara por justiça.
Sétimo discurso: 21: Jó faz notar que a doutrina da retribuição não tem sustentação, uma vez que os ímpios prosperam e o justo morre infeliz.
Oitavo discurso: 23-24: Novamente ele nega a tese da Retribuição, fazendo uma profunda análise da situação dos pobres e das injustiças sociais.
Nono discurso: 26-27: Jó reafirma sua inocência (27, 3-6) e participa da transcendência de Deus (26; 27, 11).
Decimo discurso: 29-31: Jó retoma a trajetória de sua vida no passado e no presente e a orienta para o futuro. Seguro de sua integridade, caminha confiante para o futuro, ao encontro de Deus:
29 - Jó como homem livre no âmbito de uma aldeia. Vida integrada na relação com Deus e como os outros. Defesa dos pobres como característica de uma vida de solidariedade: a) união e amizade com Deus no seio da família (2-6). b) Prestigio e autoridade na vida publica (7-12; 21-25). c) Fama de homem beneficente e generoso (13-17). d) Esperança de futuro feliz (18-20). 30 - Tribulações e desafios no presente: humilhação, zombarias em oposição as honras de antes (1-10); presença hostil e arbitrariedades de Deus (11-31). 31 - Protesto de inocência, que Jó apresenta como libelo justificativo ante o tribunal divino.
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